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quarta-feira, 26 de abril de 2023

Liberdade

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen com imagem de Roque Gameiro. 

terça-feira, 21 de março de 2023

O negrilho

Na terra onde nasci há um só poeta.
Os meus versos são folhas dos seus ramos.
Quando chego de longe e conversamos,
É ele que me revela o mundo visitado.
Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,
E a luz do sol aceso ou apagado
É nos seus olhos que se vê pousada.

Esse poeta és tu, mestre da inquietação
Serena!
Tu, imortal avena
Que harmonizas o vento e adormeces o imenso
Redil de estrelas ao luar maninho.
Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso
Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!

 Este poema de Miguel Torga foi inspirado por um negrilho (olmo) que existiu em S. Martinho de Anta, a terra onde o poeta nasceu. 

O fingidor

O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

 Poesia de Fernando Pessoa com imagem do poeta da autoria de Orlandeli.

quarta-feira, 8 de março de 2023

Mulheres

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos

Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes...
e calma.

Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen com imagem de Paula Rego.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Cartas de amor

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas. As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas. Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

Poema de Fernando Pessoa com imagem de Almada Negreiros

Juntos

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei.

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen com imagem de James Coates.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Liberdade

Aqui nesta praia onde 
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente
Encontra a própria liberdade.

A propósito do Dia Mundial da Liberdade, um poema de Sophia Mello Breyner Andresen e a imagem, A pomba da liberdade, de Picasso.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

A palavra do poeta

De palavra em palavra
a noite sobe
aos ramos mais altos

e canta
o êxtase do dia.

Poema de Eugénio de Andrade (1923-2005) com imagem de Van Gogh.
 

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

À boca fechada

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

 Poema de José Saramago com imagem de Alexander Moldavanov.

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Infância

A criança está completamente imersa na infância
a criança não sabe que há-de fazer da infância
a criança coincide com a infância
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono
deixa cair a cabeça e voga na infância
a criança mergulha na infância como no mar
a infância é o elemento da criança como a água
é o elemento próprio do peixe
a criança não sabe que pertence à terra
a sabedoria da criança é não saber que morre
a criança morre na adolescência
Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era da cor do bibe
e tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora nunca mais eu saiba como ela se diz.

Poema de Ruy Belo com imagem de Martin Aitchinson.

domingo, 1 de maio de 2022

Retrato adormecido

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe
Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.
[…]
Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos.
[…]
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te rosas.

Poema de Eugénio de Andrade com imagem de David Hockney.

Quando eu nasci

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...

Poema de Sebastião da Game com imagem de Millicent Etheldreda Gray.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Um planeta

No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta.

A poesia é de Cecília Meireles e a imagem de Arlissa Vaughn.

sábado, 19 de março de 2022

Meu Pai

A vida é feita de nadas:

De grandes serras paradas

À espera de movimento;

De searas onduladas

Pelo vento;

 

De casas de moradia

Caídas e com sinais

De ninhos que outrora havia

Nos beirais;

 

De poeira;

De sombra duma figueira;

De ver esta maravilha:

Meu Pai a erguer uma videira

Como uma mãe que faz a trança à filha.

 Poema de Miguel Torga com imagem de Jena François Millet.

quinta-feira, 3 de março de 2022

Boletim meterológico

Céu muito nublado   vento
Fraco moderado de sudoeste

Soprando forte nas terras
Altas   aguaceiros em especial

Nas regiões do Norte e Centro
E que serão de neve nos

Pontos mais altos da Serra
Da Estrela e no teu coração.

Poema de Jorge de Sousa Braga com imagem da Serra da Estrela vista aqui.

Poeta premiado

Jorge Sousa Braga venceu o Prémio Literário Inês de Castro com a obra A Matéria Escura e Outros Poemas.

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

O teu riso

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas
não me tires o teu riso. 

(...)

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
curvas da ilha,
ri-te deste rapaz
desajeitado que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando os meus passos se forem,
quando os meus passos voltarem,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas o teu riso nunca
porque sem ele morreria.

Poema de Pablo Neruda com imagem de Christian Chapman. 

terça-feira, 5 de outubro de 2021

O sonho do professor

Neste dia do professor, lembramos Sebastião da Gama, que seguiu esta profissão com entusiasmo e dedicação.

Pelo sonho é que vamos,
Comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não frutos,
Pelo Sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
Que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
Com a mesma alegria,
Ao que desconhecemos
E ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?
-Partimos. Vamos. Somos.

 

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

No coração

Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

Poema de Álvaro de Campos com imagem de Eric Fischer.